



Psicologia e Psicanálise
“Descobrimos que os indivíduos vivem criativamente e sentem que a vida merece ser vivida ou, então, que não podem viver criativamente e tem dúvidas sobre o valor de viver”.
D. W. Winnicott
Texto interessante para reflexão.
Bonsai
e Desenvolvimento Humano
Bonsai. Aquelas arvorezinhas japonesas que mexem com a curiosidade de todo mundo. Como elas ficam tão pequenas? Onde consigo sementes dessas árvores? Que técnicas utilizo para fazê-las? Enfim...
Eu comecei a aprender a fazer os bonsais quando estava na faculdade. Meu pai tinha cansado de cuidar de suas orquídeas, foi aprender coisas novas e começou a praticar esta arte. “Fui no embalo” dele, aprendendo algumas coisas dessas árvores na época em que também estudava psicologia e ficava comparando as arvorezinhas com o desenvolvimento humano.
As idéias das comparações não foram inteiramente minhas, já que os professores de Bonsai, estilo “Sr. Miague” do “Daniel San”, o Larusso, às vezes faziam algumas sabias comparações do tipo:
Sr.Miague: “Não é bom dar muita água pro Bonsai à noite né!”.
Eu (Daniel San): “Porque Sr.Miague?”
Sr.Miague: “É igual deixar bebê dormir de fralda molhada!”
Eu dava risada “por dentro”. Depois aprendi que o excesso de umidade, principalmente à noite, contribui para o apodrecimento das raízes e aparecimento de fungos. Então, no meu aprendizado, fui criando algumas outras comparações estilo “Karatê Kid”.
Os bonsais não são plantas com sementes diferentes. Você pode fazer Bonsai de qualquer árvore, com pitanga, jabuticaba, peroba, arvores japonesas, etc, etc. etc. Claro que algumas características são importantes como ter folhas e frutos pequenos para dar proporcionalidade. Imagina um Bonsai de Jaca! Não daria certo aquelas folhas imensas quase do tamanho do Bonsai, sem contar o Fruto!
Então você pode pegar qualquer semente e plantar. Terá que cuidar diariamente, já que apenas um dia sem água poderia matar, ou prejudicar seriamente a árvore. Ai está outra comparação. A dedicação e cuidados diários com a plantinha. Você tem que cuidar dela desde a semente e não pode vacilar nem um dia.
As duas principais técnicas utilizadas no Bonsai são a poda dos galhos e raízes e aramação dos galhos. A poda vocês já sabem o que é, só pegar a tesoura e cortar. A aramação é utilizar um arame para dar forma aos galhos e tronco. Você enrola o arame em volta do galho que quer dar forma e ajeita-o. Existe toda uma técnica e arames especiais para fazer isso sem matar a planta.
Mas o curioso é que, mesmo nas plantas, você tem que respeitar as características intrínsecas de cada muda. Elas são únicas e cada bonsai será sempre diferente um do outro. Se você tentar dar uma forma, um estilo, além do que o Bonsai agüenta você o mata.
Você pode usar a poda e a aramação para dar uma certa forma que você quer. Mas os melhores Bonsais são sempre aqueles em que o artista usa e potencializa as características da muda para lhe dar beleza, e não o contrário, onde ele forçaria a muda a tomar um caminho do qual ela não agüenta. Se você forçar demais os galhos na aramação ele quebra. Se cortar um pouco além do limite, o galho seca.
A muda tem suas próprias intenções também. Segue as regras do fototropismo e geotropismo. As folhas normalmente buscam a luz e as raízes a terra! Então, muitas vezes, não adianta você querer que uma planta seja num estilo cascata (aquelas árvores que crescem nas costas íngremes de cachoeiras e o tronco vai para baixo) se ela está crescendo no estilo ereto formal (como os pinheiros canadenses).
O bonsai bem formado, bonito, no vaso raso e pequeno, como nas ilustrações, leva anos para ficar assim. Podem levar 10, 20, 50 anos ou mais. Você tem fazer várias adaptações e utilizar uma grande variedades de técnicas até chegar nesse ponto.
Entre outras coisas, você precisa saber a dosagem dos nutrientes para a adubação. Precisa saber a iluminação que aquele tipo de árvore mais gosta. O tipo de solo onde plantar é fundamental também. Há plantas que gostam de solo mais arenoso e sol a pino com no mínimo 12 horas de sol (as que crescem em desertos e sertões), outras preferem sombra e terreno argiloso, outras ficam no meio termo. Você tem que respeitar essas características senão a planta não cresce bem. Saber as técnicas, portanto, é fundamental! No entanto, sem o amor e dedicação as árvores e botânica em geral, um artista jamais conseguirá Bonsais célebres!
“Se você não se entregar inteiramente a sua arte, ela nunca se entregará a você!”. Escutei uma vez de um artista plástico de Ibiporã, Henrique Aragão.
Dominar a técnica é fundamental, no entanto, ela não valerá de nada se você não estiver constantemente disposto contemplar a natureza e se apaixonar pelos seus mistérios, desde os pequenos nutrientes, o vento, o sol, o solo, etc. para finalmente se aproximar da arte das árvores em vasos.
É muito difícil sabermos se uma mudinha está do jeito que está somente por causa de sua genética ou cuidados do jardineiro. Às vezes um pesa mais, às vezes menos. Não é porque sou apaixonado por e quero ter um Bonsai de “Raiz sob Pedras” que vou pegar uma muda “KENGAI” e tentar adaptá-la, será um desastre.
Independente do estilo, se você se dedicar ao seu Bonsai diariamente, amá-lo, e estudar as técnicas a fim de explorar o melhor de sua muda, você terá feito um bom trabalho! No entanto, não poderemos ter total controle das mudas já que elas são seres vivos, às vezes tomarão seus próprios rumos em busca da luz e seus nutrientes.
FIM.
P.S.: A primeira pessoa para quem eu mostrei este texto me disse:
“Mas você só fala dos Bonsais... e o desenvolvimento humano?”.
Eu respondi: “O Sr.Miague falaria do desenvolvimento?”. Rs.
(D. Kazahaya)

